Descendo a serra do Mar Paranaense

Escrito por Márcia Regina Falcioni Pinesso

Olá pessoal! viajar é muito bom e sair da rotina e nos aventurar em novos roteiros é melhor ainda, desde que a gente consiga entrar no clima do lugar, das pessoas, da programação que se tem pela frente.

Depois que você faz uma viagem a passeio, você vai desejar viajar sempre! Por isso é importante traçar algumas metas para aproveitar o destino; o investimento feito; os lugares, suas paisagens, seus costumes, seu povo.

Ir para bem longe da minha terra me despertou o desejo de conhecer mais de perto minha cidade, meu estado, meu país... Meu Paraná apresenta uma linda paisagem que já conhecíamos por fotos, vídeos, matérias televisivas, que sem dúvida alguma mostram a beleza, mas nem sempre despertam sentimentos e emoções iguais aos que vivenciamos quando fazemos parte da cena, dos momentos.

Sempre bom organizar com antecedência para que no fim tudo aconteça como o previsto. Depois de pesquisar roteiros, datas, preço de passagens e estadias, optamos pelo pacote de viagem da empresa Have Fun Turismo. Empresa séria que superou nossas expectativas em relação a organização e profissionalismo. O João Pedro foi nosso guia de viagem e o Jhonatan nosso monitor. Os dois muito atenciosos.

O destino inicial da nossa aventura foi o passeio de trem à Serra do Mar que liga Curitiba a Paranaguá. Nosso trajeto foi até Morretes. A empresa Serra Verde é responsável pelo transporte, e, é bom que se diga que tinha uma multidão aguardando o embarque numa manhã de sábado. Logo, ter os bilhetes antecipados é a garantia de realizar o passeio. Nós não nos preocupamos com isso, pois no pacote estava incluso este serviço. Dentro do vagão fomos conduzidos pela "ferromoça" Luiza, uma senhora de origem japonesa, muito divertida e muito conhecedora da história de cada pedaço da ferrovia que conduz o trem diariamente.

Luiza, a ferromoça, nos contou que a construção da estrada de ferro se deu no século XIX, mais precisamente no período de 1880 a 1885. O projeto inicial da ferrovia foi dos irmãos Rebouças, netos de uma escrava alforriada casada com um alfaiate da corte portuguesa. Os jovens Rebouças estudaram na Europa e se especializaram em Engenharia no Rio de Janeiro. Eles apresentaram o projeto de construção da ferrovia (que recebeu alterações), e na oportunidade solicitaram que não houvesse nessa construção, trabalho escravo. O imperador Dom Pedro II atendeu ao pedido especial e assim todo trabalhador recebeu remuneração pelo serviço prestado.

Antonio Ferrucci (experiente em construção de ferrovia) dirigiu a obra nos primeiros dois anos, sendo substituído por João Teixeira Soares (jovem engenheiro brasileiro). A pouca idade e a falta de experiência do jovem engenheiro, não foram impedimentos para conduzir a construção até o final. Na obra foram utilizados 9000 trabalhadores, em sua maioria imigrantes poloneses, alemães e italianos. Essa não sofreu interrupção mesmo em momentos difíceis, como uma epidemia de malária e tifo que atingiu alguns trabalhadores. Alguns homens morreram pela doença e também por acidentes de trabalho dada a complexidade da construção.

Com os devidos esclarecimentos históricos registrados vamos aos sentimentos e emoções vivenciados nesta verdadeira aventura de aproximadamente 3h de trajeto pela Serra do Mar do Paraná.

A ferrovia da Serra do Mar é considerada uma obra prima da engenharia brasileira. Seus aproximados 108 km de trilhos passam por 41 pontes, dezenas de pontilhões, 13 túneis, ladeados por uma gigantesca floresta, alguns rios, cachoeiras, serras, montanhas e vales.

O que mais impressiona é a vegetação exuberante ao longo do trecho. Uma variedade de plantas de diferentes espécies, tamanho e coloração estão presentes na formação da paisagem. As araucárias, um dos símbolos do Estado do Paraná, é bem abundante na região, mas tem também plantas exóticas como o eucalipto de origem australiana; os pinus de origem européia; as bananeiras das Ilhas Canárias; as hortências trazidas dos Açores; o beijinho de origem africana; o lírio do brejo de origem indiana.

Algumas plantas nativas como a Embaúba, a Aleluia, o Bambu, as Bromélias, o Guapuruvu, Imbuia, Ipê Amarelo e Roxo, Manacá da Serra, Orquídeas, Palmito, Samambaias, Flamboyant, entre outras, se apresentam de forma muito viçosas. Confesso que não conseguíamos diferenciar todas as espécies no descer na serra, mas o conjunto da obra é encantador.

Emocionante mesmo foi o trecho onde o trem passa sobre trilhos na Ponte São João que é a maior ponte do percurso com 113 metros de comprimento, 70 metros de vão livre e 58 metros de altura. Ufa, chega dar um frio na barriga.

Ainda é possível ver uma barragem do Rio Ipiranga, o reservatório Marumbi, que gerou energia elétrica dos municípios do litoral paranaense, na década de 1960.

Durante o trajeto vimos também algumas construções em alvenaria. Umas em funcionamento, outras abandonadas. As primeiras atendem aos funcionários da ferrovia, as segundas compõem a paisagem do lugar e remetem as muitas histórias que se pode contar...

Desembarcamos em Morretes perto das 11h30. Nosso pacote contemplava um almoço delicioso no restaurante Casarão, que nos serviu o prato tipo da região: o barreado, com frutos do mar e outros acompanhamentos. Tudo muito gostoso, mas pensem numa delícia de maionese de inhame com camarão... Muito boa! Cheguei em casa e já me atrevi a fazer o prato para a família experimentar. Quero voltar a Morretes, quem sabe eu consiga a receita original.

Morretes é uma cidadezinha bem aconchegante, após o almoço tivemos um tempinho para andar na feirinha que vende produtos artesanais, visitar algumas lojas e também apreciar o rio tranquilo que corta a cidade.

Vou confessar um segredo pra vocês, a empresa Serra Verde comercializa uns produtos no decorrer do trajeto, entre eles um livro: A Fantástica viagem de trem pela Serra do Mar Paranaense, narrado pelos guias de turismo Ana Carolina Kuczkowski, Fabio Rozalinski Kuczkowski (in memoria) e Natanael Greco-Ferlizi, editado por Kairós Edições, em 2017, que possibilitou a fundamentação deste artigo, mas mais do que isto, é um material que deixa viva a memória e as emoções vividas ali.

Algumas pessoas que já haviam feito o passeio de trem pela Serra do Mar confidenciaram que não acharam o passeio tão interessante, fica aqui uma dica, entre no trem, admire a paisagem, compre o material comercializado pela empresa Serra Verde para ler com calma. Os cartões postais, os imãs de geladeira, o baralho com fotos da região são lindos e refletem com precisão a paisagem do local.

José Saramago em sua sabedoria escreveu que¨[...]é preciso sair da ilha para ver a ilha¨, se referindo a necessidade de sairmos do nós para nos enxergarmos. Eu pensando nisso, digo: seria preciso sair do trem para registrar a paisagem que encanta os olhos. De preferência num transporte aéreo, ou quem sabe num esporte radical. Nossos registros nem sempre refletem a paisagem vista e admirada. Mesmo assim, compartilho com vocês as imagens registradas por mim, minhas irmãs, meu sobrinho e meus netos. Até breve!